NÁCAR

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NÁCAR
2023








© Francisca Lopes (Photo & Drawing)



© Susana Neves / Projeções




NÁCAR é uma proposta performativa onde reflito sobre esquecimento e ficção de memórias. É um poema subjectivo e autobiográfico que se incide num lugar de recolha e de fugas. 


Do árabe naqqára, «tambor», nácar é uma substância dura, irisada, rica em calcário, produzida por alguns moluscos, reveste o interior de diversas conchas e também é libertada como uma reação a um corpo estranho que tenha entrado na membrana epitelial. O corpo estranho causa irritação ao animal que passa a libertar essa secreção isolada para calcificação similar à parte interna da concha, formando uma pérola cujo tamanho varia de acordo com o tempo de resistência ao corpo estranho e das condições climáticas do meio ambiente. 


Desde já há algum tempo que tenho refletido sobre o facto de não ter praticamente nenhum arquivo (fotografias, vídeos, desenhos) sobre a minha infância. Para além dos materiais físicos, as partilhas que me foram transmitidas pelas pessoas próximas com quem cresci são raras e desconexas. Esta ausência de arquivo formou na minha memória um período distante, inventivo e carregado de suposições. A memória é um lugar de energia, armazenamento e evocação, muitas vezes indefinido e construído através da relação de imagens reais com desejos, conflitos e projeções. 


Este projeto nasce da necessidade de celebração de um espaço e do que este representa para festejar a ironia do que nos é vago e ainda assim tão certo e deslumbrante. Através da construção e desconstrução deste arquivo real e ficcional potencia-se o vigor dos lugares de fragilidade, numa viagem entre a clareza e o difuso, entre a tensão do querer saber e o deixar ir. O que foi, o que fica, o que lateja, o que vive, resiste, persiste. 


NÁCAR é uma performance de 15 minutos para um público próximo. No palco, o meu corpo nu - usando uma máscara de coelho punk-rock - estabelece um diálogo progressivo com um vídeo criado por Daniel Pinheiro e projetado sobre mim; uma fusão na qual o corpo se torna, gradualmente, parte integrante do vídeo, tornando-se cada vez mais digital: uma dança/viagem - de alguém ou de algo - em direção a um outro plano, outro território, numa tentativa de fuga e transformação.




NÁCAR is a performative proposal where I reflects on oblivion, fiction of memories. It is a subjective and autobiographical poem that focuses on a place of recollection and escapes. 


From the Arabic naqqára, “drum”, nácar is a hard, iridescent substance, rich in limestone, produced by some molluscs, which coats the inside of several shells and is also released as a reaction to a foreign body that has entered the epithelial membrane. The foreign body causes irritation to the animal, which starts to release this isolated secretion for calcification similar to the inner part of the shell, forming a pearl whose size varies according to the time of resistance to the foreign body and the climatic conditions of the environment. 


For some time now, I have been reflecting on the fact that I have  no virtually archives (photographs, videos, drawings) about my childhood. In addition to the physical materials, the shares passed on to me by the close people I grew up with are rare and disconnected. This absence of archive formed in my memory a distant period, inventive and full of assumptions. Memory is a place of energy, storage and evocation, often undefined and built through the relationship of real images with desires, conflicts and projections. 


This project was born out of the need to celebrate a space and what it represents, to celebrate the irony of what is vague and yet so certain and dazzling. Through the construction and deconstruction of this real and fictional archive, the strength of places of fragility is enhanced, on a journey between clarity and the diffuse, between the tension of wanting to know and letting go. What was, what remains, what throbs, what lives, resists, persists.


NÁCAR a 15-minute performance for an intimate audience. On stage, my naked body - wearing a punk-rock rabbit mask - engages in a progressive dialogue with a video created by Daniel and projected onto me; a fusion in which the body gradually becomes an integral part of the video, turning increasingly digital. This dance evolved into a journey - of someone or something -  toward another plane, another territory, in an attempt at escape and transformation.


direction and performed by Bruno Senune

video Daniel Pinheiro

mask Uri

sound landscape Bruno Senune (reviewed by Flávio Rodrigues)

poem and voice Bruno Senune

documentation & investigation Telma João Santos

co-production private collection - fffilm project

thanks to Francisca Lopes, Régis Badel

debut at Museu Soares dos Reis (Oporto)

reposition at FIDANC (Évora), Projeções (Oporto), Festival Contradança (Covilhã)