LA SOIF

.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
LA SOIF
2025








© Kmiye Melle Pin



LA SOIF é um projeto onde me reencontro comigo próprio, onde as várias peças que fui desenvolvendo, por entre muitas outras como intérprete, respiram, aceitam o encontro e se transformam, através de vários mecanismos de criação e desafios autopropostos, numa nova viagem, viagem da viagem, uma viagem por entre a destruição, re-construção, lamento, deriva, delineando paisagens por entre memórias, perdas, despedidas e continuidade, decido enfrentar estes elementos, aprofundá-los, expandindo e tornando um porvir as fronteiras do que já foi, metamorfoseando movimento, máscaras, desconsolos, desejos, futuros, após a despedida do que - e de quem - não volta, uma prova de resistência e ode ao que – e a quem – fica. A partir dos conceitos de viagem e memória, estabeleço novos entremeios que destroem binários, que se reformulam por entre possibilidades fixas. O “trash”, o queer, a paisagem inominável, o etéreo, o efémero, mas sempre o corpo, presente até nas maiores ausências, a elaborar o passo, o compasso, o movimento, o suor, o erótico, o “estou aqui”. 


Em 2023, dei início a um díptico, que nomeei de díptico da morte, formado por NÁCAR (2023) e LA SOIF (2025), onde formulo um olhar inicial sobre a relação da memória com a morte e a despedida em nácar e a relação da continuidade após essa despedida, em La Soif, numa construção contínua de desejo de continuar. Em particular, em nácar, reflito sobre esquecimento, despedida, a partir de uma relação ficção/real, onde reformulei um arquivo autobiográfico, subjetivo, potenciando o vigor de lugares de fragilidade. Aqui torna-se evidente um lugar de imaginário ficcional que transforma fragilidade em ficção, ficção em realidade, memória em força vital. É uma performance de 15 minutos para um público próximo, onde estão presentes apenas o meu corpo com uma máscara dialogando pouco a pouco com a matéria e o conteúdo de um vídeo projetado, numa fusão simbiótica e intrínseca, em que o corpo se torna cada vez mais digital, uma viagem desse corpo para um outro plano. La Soif, a segunda peça deste díptico, transformou-se consequentemente numa ode à contínua reformulação de possibilidades para cada desconsolo, uma viagem frenética pela vontade de continuar, de não me esquecer, de estar em constante movimento para que a vida continue um lugar de procura, de esperança, de sentido em contínua metamorfose; aqui tornando-se evidente e presente como matéria de composição e coreografia, um acontecimento pessoal que atravessei nos últimos anos, em que alguém muito próximo e íntimo na minha vida faleceu, criando um mar de questões e inquietações em como continuamos, para quem fica, após a morte, de quem parte.


LA SOIF is a project where I rediscover myself, where the various pieces I have developed, among many others as a performer, breathe, accept the encounter and transform themselves, through various creative mechanisms and self-imposed challenges, into a new journey, journey within a journey, a journey through destruction, reconstruction, lament, drift, outlining landscapes amidst memories, losses, farewells and continuity. I decide to confront these elements, to deepen them, expanding and transforming the boundaries of what has been into a future, metamorphosing movement, masks, sorrows, desires, futures, after the farewell to what – and to whom – does not return, a test of resistance and an ode to what – and to whom – remains. From the concepts of journey and memory, I establish new in-between spaces that destroy binaries, that are reformulated amidst fixed possibilities. The “trash”, the queer, the nameless landscape, the ethereal, the ephemeral, but always the body, present even in the greatest absences, elaborating the step, the rhythm, the movement, the sweat, the erotic, the “I am here”.


In 2023, I began a diptych, which I called the diptych of death, formed by NÁCAR (2023) and LA SOIF (2025), where I formulate an initial look at the relationship between memory, death and farewell, in nácar, and the relationship of continuity after this farewell, in La Soif, in a continuous construction of the desire to continue. In particular, in nácar, I reflect on forgetting, farewell, from a fiction/reality relationship, where I reformulated an autobiographical, subjective archive, enhancing the vigor of places of fragility. Here, a place of fictional imagination becomes evident, transforming fragility into fiction, fiction into reality, memory into vital force. It's a 15-minute performance for a close audience, where only my body, wearing a mask, is present, gradually interacting with the material and content of a projected video, in a symbiotic and intrinsic fusion, where the body becomes increasingly digital, a journey of this body to another plane. La Soif, the second piece in this diptych, consequently transformed into an ode to the continuous reformulation of possibilities for each sorrow, a frenetic journey through the will to continue, not to forget, to be in constant motion so that life remains a place of searching, of hope, of meaning in continuous metamorphosis; here becoming evident and present as material for composition and choreography, a personal event I went through in recent years, in which someone very close and intimate in my life passed away, creating a sea of ​​questions and anxieties about how we continue, for those who remain, after death, of those who depart.



direction, stage space, and performance Bruno Senune
texts, documentation and research Telma João Santos

choreographic advice Régis Badel

costume design Uri from an idea by Ana Isabel Castro

sound Bruno Senune technical support Lise Meron

graphic design Kmiye Melle Pin

video recording Sérgio Braz d'Almeida

residencies A Piscina, Companhia Olga Roriz, STUDIO BUSSEIX

co-production Festival Interferências, CDCE - FIDANC

administrative management Réptil Artes Performativas


PORTRAIT BY SUSANA CHICÓ

FESTIVAL INTERFERÊNCIAS


  



FIDANC (Évora, Portugal) - 27 de Setembro

Festival Interferências (Lisboa, Portugal) - 3 e 5 de Outubro


    Assumo nesta peça o meu nomadismo, concreto e ficcional, aceito que a viagem me caracteriza como pessoa, como artista, construindo imaginários assentes na autobiografia, mas também eles reformulados e reconstruídos por entre universos ficcionais. Por nunca ter sido possível saber o meu sexo durante as ecografias da minha Mãe e pelo tipo de gravidez que ela teve foi previsto que o meu nome seria Helena. Quando nasci, chamaram-me Bruno. Existe um lugar ficcional (mas que nunca abandonou a realidade) onde serei sempre Helena, como já fui. Desejada, bela, corajosa, deambulante e passível de guerra, aceito Helena como parte desta relação com o lamento e com a viagem. Viajo como e com Helena por entre lamentos ficcionais que transformam e são também a realidade. Desenvolvo-me como mito, deambulo por entre lamentos, desolações e desconsolos. O que é o real senão uma construção, um olhar, particulares? Sou, tal como uma das possibilidades de ser Helena, filha do Oceano e de Afrodite, entre o infinito do mar e o erotismo, viajando por entre marés e possibilidades de encontro, acreditando em imaginários ondulantes, efémeros, transitórios e ritualizados, que se repetem, e voltam e revoltam. Em La Soif continuo à procura de um rumo, de uma identidade do agora, do amanhã, (des)construindo e vivendo através de uma ideia de amor também ela do agora e do amanhã, amor difuso, onde revisito desejos e procuro novamente o lugar entre realidade e a ficção, numa constante tentativa de consolo.


In this piece, I embrace my nomadic nature, both concrete and fictional. I accept that travel defines me as a person, as an artist, constructing imaginaries based on autobiography, but also reformulated and reconstructed within fictional universes. Because it was never possible to know my sex during my mother's ultrasounds, and due to the type of pregnancy she had, it was predicted that my name would be Helena. When I was born, I was called Bruno. There is a fictional place (but one that has never abandoned reality) where I will always be Helena, as I once was. Desired, beautiful, courageous, wandering, and capable of war, I accept Helena as part of this relationship with lament and with travel. I travel as and with Helena through fictional laments that transform and are also reality. I develop myself as a myth, wandering among laments, desolations, and sorrows. What is reality if not a construction, a particular gaze? I am, like one of the possibilities of being Helena, daughter of Oceanus and Aphrodite, between the infinity of the sea and eroticism, traveling through tides and possibilities of encounter, believing in undulating, ephemeral, transitory, and ritualized imaginaries that repeat themselves, return, and revolt. In La Soif I continue searching for a direction, for an identity of the now, of tomorrow, (de)constructing and living through an idea of ​​love that is also of the now and the tomorrow, a diffuse love, where I revisit desires and seek again the place between reality and fiction, in a constant attempt for consolation.








© SUSANA CHICÓ / FESTIVAL INTERFERÊNCIAS


© FLÁVIO RODRIGUES / FIDANC

© DUARTE SILVA / FESTIVAL INTERFERÊNCIAS